Para quem conhece e gosta da cultura japonesa, é redundância dizer que o Japão é um dos países mais exóticos do planeta, e ao mesmo tempo, controverso (no bom sentido da palavra).

Faça um raciocínio rápido e junte com tudo o que sabe sobre guerras e tomadas de poder, território etc. A história conta que, muitas delas existem, persistem ou se iniciaram por diferenças de crenças religiosas.

Em contraste com o que vemos no noticiário, a guerra religiosa parece não ter fim. Pois é, lembra o que acabei de dizer sobre a irônica contradição japonesa? Ela tem nome e existe desde o período Edo (1603-1868). O Sanja Matsuri 三社祭.

Sanja Matsuri não é só um festival que une seu povo pela comunhão religiosa e cultural, ele é um exemplo de que a fé ainda pode unir povos, ainda mais por que, uma das atrações do evento é a participação massiva e coletiva de pessoas tatuadas. Mas não são só de cidadãos comuns. Acompanhe.

 

Procissão japonesa

O festival Sanja Matsuri é dedicado aos Kami (espíritos) de três homens dedicaram suas vidas à fé budista ao encontrar estatueta do Bodhisattva Kannon, capturada em uma rede de pesca no Rio Sumida em 17 de maio de 628. Esses homens foram responsáveis por difundir o budismo sediado no templo, hoje conhecido como o Sensō-ji onde abriga a estátua de Kannon. Esse templo é o mais antigo de Tóquio.

O festival acontece em Asakusa (um bairro famoso em Tóquio). São 3 dias inteiros de festa, tornando-se um dos maiores festivais de Tóquio, ao lado de Kanda Matsuri e o Sanno Matsuri, ambos com viés religioso. Cerca de 100 mikoshi (santuários portáteis), desfilam pelas ruas de Asakusa para trazer sorte às empresas e moradores e neles são, simbolicamente, colocados os três deuses xintoístas (Kami). O mikoshi é carregado por vários participantes e é acompanhado por uma multidão. Muito parecido com as procissões no Brasil.

 

O “Carnaval da Yakuza”

O Sanja Matsuri é uma mistura de entretenimento, manifestação cultural e romaria budista. Mas, o que mais chama atenção no Sanja Matsuri é a exposição aberta de tatuagem de membros máfia japonesa, a Yakuza também conhecida como gokudō (極道) no país, que esperam o ano todo para “desfilar”.

Este é um dos únicos festivais do mundo que une a sociedade civil comum com os “ninkyō dantai” 任侠団体 ou 仁侠団体 como são os autointitulados membros da Yakuza.

Durante o evento, os yakuzas exibem orgulhosamente suas tatuagens usando apenas fundoshi (uma espécie de tanga de sumô).

As tatuagens ornamentais da Yakuza geralmente cobrem todo o corpo dos pulsos aos tornozelos até o colarinho, permitindo que os criminosos escondam os desenhos elaborados sob suas roupas.

Ser tatuado no estilo Irezumi no Japão é considerado um rito de passagem para a Yakuza, com imagens de samurais, dragões e peixes koi entre alguns dos desenhos populares.

No entanto, as tatuagens “ao estilo Yakuza” geralmente não agradam a maioria das camadas da sociedade japonesa. Lá, os banhos públicos ou “onsens” que são tradicionais e quase um ritual, proíbem tatuagens, na tentativa de dissuadir os membros de gangues de comparecerem.

Diferente de qualquer lugar no mundo, onde as facções criminosas tendem a evitar as aparições públicas, a Yakuza aproveita para demonstrar todo o seu poder de influência e provar que também tem necessidade de expressar sua fé através do corpo e da espiritualidade, afinal o festival e desfile Sanja Matsuri tem o objetivo de trazer sorte, bênçãos e prosperidade para a região de Asakusa e seus habitantes.

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